quinta-feira, dezembro 22

Porque elas desejam os gays?

A publicitária Juliana Sanches, de 28 anos, esbarrou num vizinho no prédio em que morava e se apaixonou. Era o homem perfeito, na porta ao lado: lindo, cheiroso, sensível, atencioso, bem vestido e bem-sucedido. Faltava só o cavalo branco estacionado na garagem. Pouco tempo depois, ela o encontrou numa balada. Ele beijava outro cara. “Ele era o sonho de qualquer garota. Decidi que faria ele virar heterossexual”, diz. Juliana e o vizinho ficaram amigos. Por um mês, ela investiu na relação com a malícia de quem quer mais. Um dia ele cedeu, os dois se beijaram no apartamento. Namoraram três meses, mas o clima não esquentou. “Uma árvore causava nele a mesma reação que uma mulher pelada”, diz a publicitária. Ela diz que agradeceria se ele fosse ao menos bissexual.
O desafio de Juliana parece ser compartilhado por um número cada vez maior de meninas. Elas querem um gay para chamar de seu. O assédio feminino é tão frequente que muitos gays reclamam. As marias purpurinas – apelido dessas garotas que se encantam por homens muitas vezes de voz afeminada e trajes extravagantes – vão a casas noturnas voltadas para o público homossexual para se divertir. E, na falta de héteros no local, paqueram os gays. “Elas atacam mais que as bichas!”, diz o blogueiro e DJ Daniel Carvalho. “Falo na hora que comigo não rola, mas elas passam a mão e ficam em cima. Sempre dou um jeito de fugir."

Já as marias purpurinas costumam até aceitar que o sexo fique fora da história. Contentam-se com beijos e passeios a dois. J., de 38 anos, gerente de uma casa noturna, namorou por quatro anos um gay. “Era um amor de idosos”, diz, rindo. “Tinha companheirismo e cuidado, mas não sexo.” A intimidade incluía beijos tórridos e banhos a dois. E só. Para garantir satisfação sexual, saíam com outros parceiros.


  O fascínio feminino pelos gays é antigo. E sempre pareceu restrito à clássica amizade entre mulher hétero e homem homossexual, nutrida por interesses comuns.  Nos últimos anos, as linhas que definem as fronteiras entre amizade e relacionamento amoroso parecem ter se fundido. O cinema e a televisão captaram rapidamente isso.  
No filme A razão do meu afeto, lançado em 1998, a personagem de Jennifer Aniston se envolve com o amigo gay. A série americana Will & Grace, exibida entre 1998 e 2006, faz comédia com um casal de ex-namorados. O homem descobre que é gay, mas a dupla continua enrolada. Em sua segunda temporada, o reality show Girls who like boys who like boys (Garotas que gostam de garotos que gostam de garotos) mostra as nuances da amizade entre os gays e suas amigas.  

 Parte da explicação vem de uma certa evolução recente dos LGBT's. Com o entendimento da liberdade de expressão, faz com que as pessoas assumam suas orientações sexuais, as mulheres sentiram-se à vontade para experimentar outras possibilidades. E os gays, liberados para se divertir em relacionamentos convencionais. “As novas gerações não querem se prender a rótulos rígidos e definitivos”, afirma o psiquiatra Alexandre Saadeh, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mesmo porque a atração sexual e o envolvimento afetivo não cabem em definições simplórias. Nos estudos sobre sexualidade, algumas teorias sugerem que a mente humana separa sexo de afeto. Os dois podem ser totalmente distintos. “Uma pessoa pode ser homossexual e heteroafetiva”, afirma Saadeh. Um gay pode gostar de transar com homens, mas ter maior afinidade para conversar e se relacionar emocionalmente com mulheres. Assim como um homem pode ser heterossexual, mas homoafetivo. Ou seja, ele se excita com o sexo feminino e se sente mais bem compreendido pelos amigos do sexo masculino. 

A sensibilidade dos homens gays, que os aproxima do modo de pensar das mulheres, é o segundo motivo que explica esse tipo de envolvimento. Para os psiquiatras, os gays entendem melhor a perspectiva feminina nas conversas e ainda conseguem oferecer o ponto de vista masculino. Querem participar da vida e se mostram disponíveis até como companhia nas compras do supermercado. São cúmplices. “Sempre que íamos sair, ele ajudava a escolher minha roupa. Cozinhávamos, dividíamos segredos e dormíamos de conchinha”, diz uma estilista paulistana. Por seis meses, ela manteve um relacionamento com um homem gay. Não tinha relações sexuais com ele nem nutria expectativas de que ele mudasse sua orientação sexual. Mas o pacote beleza-e-cumplicidade oferecido pelo amigo parecia irresistível



Os motivos que levam alguns gays a manter a amizade colorida não são muito diferentes dos alegados pelas mulheres. Na hora da carência emocional, eles também precisam de referências com quem possam contar. As mulheres estão dispostas a oferecer esse vínculo emocional. O estilista A.B, de 27 anos, já namorou três mulheres. Diz ter certeza de que não é bissexual. Mas, quando bebe demais e elas continuam investindo incisivamente, ele afirma que é difícil resistir. Hoje, Alexandre namora outro homem. Diz que ficar com mulheres dá muita dor de cabeça. “Elas se apaixonam de verdade.”

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2011/12/por-que-elas-desejam-os-gays.html?utm_source=twitter&utm_medium=twitter&utm_campaign=carnaval2011




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